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segunda-feira, 18 de janeiro de 2010

Distrito 9


Diretor de Senhor dos Anéis nos apresenta sua versão do apartheid

O diretor, escritor e produtor neozelandês Peter Jackson já nos mostrou toda sua competência na condução de seus projetos cinematográficos, chegando ao apogeu entre 2001 e 2003 quando deu vida aos livros sagrados de J.R.R. Tolkien recheados de fantasia, mistério e poder; continuou em sua linha ascendente quando deu novos contornos ao clássico King kong (king Kong) de 1933. Agora assumidamente dedica-se em tempo (quase) integral à adaptação do best seller de Alice Sebold – Uma vida interrompida: Memórias de um anjo assassinado (the lovely bonnes, em pré produção).
Sabemos que hoje em dia é normal que cineastas com mais "nome" se envolvam em projetos longos e complexos que mais tarde provavelmente se tornarão grandes sucessos
de bilheteria - a exemplo de Avatar, Titanic, Homem-Aranha e o próprio Senhor dos Anéis. Entretando uma pergunta começa a martelar nossas mentes sempre que estamos desfrutando de nosso merecido – e tão raro – ócio: o que Jackson faz nesse meio tempo?
Quem r
espondeu que o cineasta vive de nome, apenas administrando as notinhas verdes que a milionária trilogia lhe rendeu, errou! Filmes como Distrito 9, a adaptação do famoso game “Halo” (esperado para 2011) e O Hobbit (2012 – previsão de lançamento) são a resposta.

Quando o desconhecido diretor sul africano Neill Blomkamp decidiu dar vida ao roteiro de um cara chamado Terri Tatchell ele nunca poderia imaginar que ganharia tamanha proporção – ao menos não antes da inserção nos créditos do nome do homem que nos trouxe a trilogia do anel. Após isso com certeza ele começou a sonhar alto, e com razão; o nome de Peter Jackson hoje é muito poderoso em qualquer produtora do mundo, portanto um roteiro qualquer que chegue a uma empresa desse seguimento e que seja “apadrinhado” pelo moço, certamente será visto com bons olhos. No caso de distrito 9 isso nem era preciso - mas ajudou bastante, claro...

Estratégia ou aposta?

Blomkamp ousou (e acertou) quando decidiu “inovar” em seu longa, misturando na mesma edição cenas de documentário (hoje se tornou moda entre os cineastas este formato), imagens de câmeras de circuito interno e imagens do filme em si; e é graças a essa edição (e a escolha proposital de um elenco totalmente desconhecido) que em alguns momentos nós nos sentimos quase que dentro do longa, sentindo na pele o dilema do personagem principal e a situação dos “hóspides” indesejados.
O filme mostra o drama de alienígenas que chegam à Terra como refugiados e são instalados em uma área de Joanesburgo na África do Sul, o Distrito 9; enquanto os humanos decidem o que fazer com eles – atenção especial para a imensa aeronave suspensa sobre a cidade sul africana como um
a nuvem gigante de metal. Impressionante!
A Multi-National United (MNU) é uma empresa contratada para controlar os alieníge
nas, mantê-los em campos de concentração e desenvolver material bélico que tenham como “matéria-prima” as defesas naturais dos extraterrestres. Mas a MNU falha na tentativa de fabricação das armas e descobre que para que elas sejam ativadas, o DNA dos alienígenas é necessário. Após 20 anos de convivência, a tensão entre humanos e aliens alcança seu clímax quando Wikus Van der Merwe - “herói” improvável, com a aparência de um professor de ciências dos anos 50 - foi escolhido para supervisionar o projeto de “re-assentamento”, e de quebra, documentar e jogar bem na TV, como flashes de notícias transmitindo ao vivo todos os seus movimentos. Mas, como um reality show que deu terrivelmente errado, as coisas ruins começam a acontecer... Wikus se envolve numa teia com uma série de acidentes e eventos que irão transformá-lo em um hibrído humano/alienígena e a partir daí passa a ser implacavelmente perseguido – principalmente pela empresa a qual dedicou sua vida. Sem casa e sem amigos, só um lugar pode acolher Wikus: O Distrito 9.

O exército de um homem só

Sharlto Copley é o responsável pela interpretação de Wikus e pelo total andamento do filme que sempre está de uma forma ou de outra seguindo-o. Uma grande parte da ação e percepção acompanha-o enquanto ele tenta driblar as autoridades e as equipes médicas que estão - de repente - muito interessados em seu “novo eu”. O personagem de Copley é inserido aos poucos - e de forma muito inteligente - no longa que se apresenta como uma sátira social mordaz escondida dentro de um thriller de ação fantástico repleto de lamentáveis conflitos entre espécies. É um caos - mas como em tudo sobre Distrito 9, há mais do que isso.

O contexto criado por Blomkamp é o próprio inferno; cuidados de saúde são inexistentes - a menos qu
e você considere as experiências científicas secretas – e a criminalidade está em alta, devido a uma máfia nigeriana que se especializou em armas e munição; os camarões, (como são pejorativamente chamados os alienígenas) passam o dia brigando e a procura de comida de gato - alimento preferido dos intrusos; os moradores estão fartos, empurrando a nova espécie para a segregação – não é a 1ª vez que vemos isso na África do Sul. Alguém aí lembrou do apartheid?

Chocante, atual e profundo. Mas nada é perfeito.

Distr
ito 9 é forte e vai direto ao ponto. As vezes pode irritar pelo excesso de informações – jornalistas, autoridades, especialistas – a todo momento nos trazendo uma nova informação (as vezes desnecessariamente) e nos forçando a entender cada entrelinha do que está se passando naquele lugar, mostrando de uma forma não tão metafórica que a sua intenção era mesmo chamar a atenção a respeito do tratamento que a sociedade dá aos que são diferentes. Ninguém tolera o que não pode explicar e embora o longa aborde temas universais, a infância na África do Sul informa claramente a intenção de Blomkamp, neste caso muito ligado ao seu aspecto de sentir - um regime segundo o qual os brancos detinham o poder e os povos restantes eram obrigados a viver separados, de acordo com regras que os impediam de ser verdadeiros cidadãos. Restrições que não eram apenas sociais, eram obrigatórias pela força da lei.
Recado dado, Blomkamp semeou ironia e analogias ao longo de cada microssegundo de Distrito 9 através de uma série de referências às enfermidades sociais contemporâneas, incluindo a divisão racial, as diferenças de classe, as reações diante da oportunidade de um grande negócio, ou mesmo com relação ao mundo “big brother” da atualidade.
Esse é pra assistir e refletir. Divirta-se.

Distrito 9 - ficha técnica

  • Titulo original: District 9
  • País: Africa do sul / Nova zelândia
  • Ano: 2009
  • Duração: 112 min
  • Gênero: Ação/Ficção científica
  • Direção: Neil Blomkamp
  • Roteiro: Neil Blomkamp e Terri Tatchel
  • Elenco: Sharlto Copley, Jason Cope e David James
  • Avaliação 4 (bom)

Trailer Oficial

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