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segunda-feira, 25 de janeiro de 2010

A princesa e o Sapo


Como é bom regressar.

A nova animação da Disney nos arremessa a um passado (não tão distante) onde ela mesma reinava absoluta e incontestavelmente no gênero. Os longas em 2D contando lindas histórias, trazendo personagens meticulosamente concebidos e inseridos com maestria nos roteiros melosos e repletos de fantasia - e alguma comédia. Entretanto nem tudo são flores, Hollywood tem um talento especial para transformar a inovação e a excelência em previsibilidade estereotipada, e o maior exemplo disso são os filmes da Disney.
Após o renascime
nto do estúdio com A Pequena Sereia, (The little marmaid, 1989) A Bela e a Fera (Beauty and Beast, 1991) e O Rei Leão (The Lion king, 1994), as coisas não foram muito bem e a carta na manga da "casa do rato" para a má fase era a parceria com o estúdio (ultra) criativo de animação Pixar.
De lá pra cá a Disney nunca mais criou nada que valesse a pena de fato assistir - ao menos não sem a ajuda da Pixar. Felizmente, A Princesa e o Sapo nos mostra que cachorros velhos aprendem truques novos e a boa e velha Disney merece algum crédito por empurrar ladeira abaixo as restrições dos moldes clichês dela mesmo, e de Hollywood de uma forma geral.

Princesas, príncipes, sapos, feitiços... Acho que já vimos esse filme.

Qualquer
um que passe os olhos na sinopse do novo longa da Disney poderia dizer em alto e bom som: De novo isso? Mas espere; eis que como num passe de mágica algo acontece e a história já não se assemelha tanto as outras da década passada. Evolução?
Os clichês começam a ser jogados pela janela a partir daqui: Nova Orleães, início do século 20... Notou a diferença?
O filme diz respeito a uma menina pobre Afro-americana chamada Tiana que tem um dom para cozinhar, e sonha em abrir seu próprio restaurante - ponto pra eles. Sua melhor amiga desde a infância é uma menina branca cujo pai rico emprega mãe de Tiana como costureira. Quando a família do amigo organiza uma festa para o Príncipe Naveen de Maldonia, Dr. Facilier, um especialista em Magia Negra (vodu), transforma o visitante real em um sapo gosmento... Pronto esse é o ponto crítico; nesse momento é que até os mais otimistas com rela
ção a formatos naturalmente engessados começaria a imaginar algo do tipo: voltamos aos clichês. Mas vamos continuar.
O tal príncipe agora tranformado num anfíbio nojento, convence Tiana que um beijo irá reverter o feitiço; trato estabelecido então: Tiana daria o beijo “salvador” que libertaria o belo príncipe de sua maldição; Naveen por sua vez iria fornecer o dinheiro necessário para que a bela morena pudesse iniciar o negócio de seus sonhos. Entretanto, o que ninguém sabia era que apenas o beijo de uma princesa poderia reverter o feitiço; seu beijo não só não devolve o príncipe a sua forma normal, como transforma Tiana em um sapo também. A dupla então parte em busca de uma Sacerdotiza de Vodu para desfazer o efeito do feitiço numa aventura através das selvas pantanosas da Louisiana. Mas peraí.
Príncipes financiando restaurantes alheios?
Princesa
afro-americana - e que vira sapo?
Feiticeiro Vodu?

Algo mudou por aqui!

Reviravoltas, Jazz, personagens "exóticos"... Esse filme é Disney mesmo?

Desd
e o início, o filme de é grandioso e ousado; magnífico diria eu. Mas certamente, o elemento mais gratificante é Tiana mesmo, que chega a ser refrescante e porquê não dizer, revolucionária; não só porque ela encarna uma nova alternativa tão necessária ao já batido (e muito batido) loiro com olhos azuis – a cara das animações Disney, mas porque ela evidencia uma ética de trabalho duro e perseverança que nos faz esquecer o clássico clichê da princesa passiva, impotente e omissa, transformando-se num personagem de extrema competência e autodeterminação. Certamente Mandela iria reconhecer um espírito semelhante em Tiana: Mesmo enquanto crescia pobre, segregado e sofrendo a falta de condescendência dos homens que negavam suas ambições, ele nunca deixou de ser o mestre de seu destino ou o capitão de sua alma.

Belas canções, animação em 2D, lição de moral... Ah, esse filme é Disney mesmo!

Claro que não poderíamos esperar que A Princesa e o Sapo fosse sempre avesso aos clichês do gênero e esquecesse dos coadjuvantes engraçados que sempre roubam a cena, as músicas previsivel
mente plantadas, as novas amizades com outros animais falantes ou mesmo as referências/homenagens aos ilustres - o crocodilo trompetista Louis homenagem mais do que óbvia a Louis Armstrong. Sem esquecer, claro, que o príncipe terá que beijar uma princesa (de verdade) antes da meia-noite ou então ambos irão permanecer para sempre sapos. Por fim, mais que naturalmente, a lição é sobre a aceitação.

Quem já foi Rei nunca perderá sua magestade.

Num con
texto tão complexo quanto inovador ainda é possível ir mais além; onde o filme opera em um nível mais amplo, coletivo. Porque não só as meninas negros e pardos vão se ver em Tiana e sua beleza, coragem e determinação. Todas as raças e idades, irão assistir ao filme, e se identificar com um personagem que pode não se parecer fisicamente com eles, mas que esconde as fraquezas, aspirações e sonhos inerentes a qualquer um. Convida uma cultura que idolatra a maioria a se identificar com uma minoria – uns em um espírito de perdão, os outros em um espírito de empatia. No frigir dos ovos vem com um sentido mais amplo de identidade coletiva. E aqui reside talvez a mais brilhante parte de A Princesa e o Sapo: retratar tal história em Nova Orleães, sabidamente um delicioso, caldeirão cosmopolita de tribos, culturas, línguas e matizes. No fim, não podemos determinar raça nem gênero em A Princesa e o Sapo, que apresenta personagens de uma infinidade de nuances inacreditavelmente perfeitos em sua diversidade. É o estúdio voltando aos tempos em que existiam apenas A “Disney” e as “outras”.
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Se você gostou desse filme:
Assista:
  • A Dama e o Vagabundo (Lady and the Tramp, 1955)
  • A Bela e a Fera (The Beauty and Beast, 1991).
Evite:
  • Barbie em o Quebra nozes (Barbie and the nutcracker, 2001)
  • Barbie como Rapunzel (Barbie as Rapunzel, 2002)
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Informações úteis

  • Titulo original: The Princess and the Frog
  • País: EUA
  • Ano: 2009
  • Duração: 97 min.
  • Gênero: Animação / Aventura / Musical
  • Direção: Ron Musker e John Clemments
  • Vozes: Anika Noni Rose / Kacau Gomes, Bruno Campos / Rodrigo Lombardi, Keith David / Sergio Fontoura, Jenifer Lewis / Selma Lopes, Jim Cummings / Márcio Simões, Michael-Leon Wooley / Mauro Ramos:
  • Avaliação: 4 (bom)
  • Trilha sonora: Download aqui
  • Filme completo: Download aqui
Informações (in)útéis
Sobre o filme:
  • Quando vi? 20/12/2009
  • Com quem? Com minha filha (Ágatha)
  • Quantas vezes? 3
  • O que senti? Uma enorme sensação de nostalgia...
Sobre o texto:
  • Quando escrevi? 22/01/2010
  • Onde estava? Em casa
  • O que escutava? Los Hermanos - Ventura
  • O que ingeria? Nada...
Outras críticas:
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Trailer oficial:


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