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segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

O caçador de pipas


“O caçador de projetos-problema”

Tendo como base o livro do escritor afegão Khaled Hosseini com mais de 8 milhões de cópias vendidas (quase 2 milhões só no Brasil) “O caçador de pipas” (The kyte runner - 2007) já chegou as telonas cercado de espectativas - junte a isso a sensibilidade do diretor Marc Forster e a espectativa aumenta em torno do longa...

O resultado obtido porém, é digamos... regular. Para quem esperava um filme que se aproximasse da obra literária de mesmo nome acertou - em parte, claro. Afinal, assim como a linguagem do livro segue uma linha tradicional de literatura, a obra cinematográfica mantém a mesma característica em relação à linguagem de seu gênero.

Com relação aos conceitos de montagem, fotografia, linearidade e narrativa o filme se enquadra numa linguagem clássica Hollywoodiana”, afirma o especialista Arthur Gomes, professor de História do Cinema e membro da ONG “Nós do Cinema”.

Com a batuta na mão, Marc Foster, diretor meticuloso que tem em seu currículo obras como “A última ceia” (Monsters ball, 2001). Mas não está sozinho nesse barco; com ele, Sam Mendes (Beleza Americana, Estrada para Perdição) que trabalha agora com o roteirista de Tróia, David Benioff. Ah... a DreamWorks produz.

Tudo bem se um ou outro disser que “A última ceia” foi o único título que teve alguma relevância na carreira do diretor suisso. Uma coisa é certa: Esse cara é corajoso! Mostrou isso ao comandar o contraditório “A passagem” (Stay, 2005) ou mesmo ao se envolver no projeto-fiasco “Em busca da terra do nunca” (Finding neverland, 2004). Foi escalado de última hora para dirigir o “Bond 23” (007 - Quantum of solace, 2010) e nenhum diretor de “estampas de verão” consegue isso se não tiver alguma bagagem; enfim...

Mais do mesmo

A história não é nenhuma novidade, o cinema norte-americano sempre manteve seu olhar sobre os conflitos no Afeganistão desde da década de 80, exemplo disso são as criações Hollywoodianas, como Rambo 3, em que o soldado americano John Rambo (Sylvester Stallone) expulsa os invasores soviéticos do Afeganistão. Hoje, principalmente depois dos ataques terroristas de 11 de setembro de 2001 e da invasão americana ao Afeganistão, o tema “guerra no Afeganistão” continua sendo uma fonte inesgotável de idéias para os cineastas e roteiristas americanos – e não americanos.

O caçador de pipas conta a história de Amir, um garoto afegão, que é atormentado pela culpa de ter traído seu criado e melhor amigo (Hassan, filho de Ali) também empregado do seu pai. A história tem como cenário uma série de acontecimentos políticos tumultuosos, decorrente da invasão soviética, a massa de emigrantes refugiados para o Paquistão e para os EUA e a implantação do regime Militar.

O caçador de Projetos-problema?

A equipe de produção e o diretor Marc Foster mais uma vez se envolveram num projeto difícil de manejar e acabaram mais uma vez dividindo opiniões... Optaram por privilegiar atores de origem árabe durante a escolha do elenco; tal medida reforçou ainda mais uma das principais características do filme: a autenticidade. Para parecer autêntico, o longa teve as falas na língua dari; a decisão de usar pessoas de Cabul para atuar decididamente fez uma enorme diferença, mas não salvou.

Ok. Vamos entender que seria mesmo quase impossível repetir o sucesso do livro: a história do cinema mostra que tal façanha é muito pouco provável, mas ainda assim fica difícil não notar a dificuldade dos atores mirins – e dos adultos também com os seus personagens. Amir (Zekeria Ebrahimi) e Hassan (Ahmad Khan Mahmidzada) não chegam a comprometer o longa mas digamos que não conseguem contribuir para o seu êxito. Qualquer um que tenha assistido mais que uma dúzia de produções protagonizadas por muleques sabe que a safra atual é boa e a escolha dos garotos acabou sendo equivocada mesmo. Isso não quer dizer que não foi uma adaptação fiel, apenas que faltou emoção. Os atores não demonstram os sentimentos marcantes no livro como a culpa, a melancolia de deixar seu país...
Na verdade parece que a estória está correndo pelo livro sem se aprofundar de fato.
Quando crianças, Amir costumava ler suas histórias para Hassan, filho de seu empregado, que pertencia a uma minoria etnica muito desprezada no Afeganistão os Hazara. Hassan não sabia ler, mas era muito nobre em sentimentos e adorava Amir. Depois do campeonato de pipas, Amir finalmente teria o orgulho de seu pai, mas algo inesperado acontece e a vida de Amir e Hassan muda para sempre, assim como sua amizade. Logo, a URSS invade o Afeganistão e Amir e seu pai fogem para a América. Mais tarde Amir se torna escritor e deve voltar ao Afeganistão para reparar o erro de não ter protegido Hassan dos que o violentaram.

Marc Forster já acertou muito em seus filmes anteriores, por sua sensibilidade e ritmo ao contar uma estória. Em “O Caçador de Pipas” essa sensibilidade não se faz presente e para quem não leu o livro, tudo pode não passar de um amontoado de cenas sem muito propósito. Não peço algo sentimentalóide, mas até quem não leu o livro sabe que O Caçador de Pipas tem uma história bonita; contando o filme a alguém, obviamente, parece que estamos falando de uma saga humana e emocionante de culpa, intolerância, redenção, e principalmente amizade e lealdade. Também é uma história triste, afinal a invasão russa no Afeganistão e a conseqüente intervenção americana no Oriente Médio como pano de fundo forçam não apenas o fim da inocência dos meninos Hassan e Amir, mas também de todo o povo. Se é focado em duas crianças, você imagina que a emoção virá à tona a qualquer momento... Só que o filme de Forster é frio e se esquiva dos sentimentos sempre quando ele ameaça surgir na tela. Por exemplo, acho que a linha narrativa de 'O Caçador de Pipas' lembra a de 'Cinema Paradiso': homem recebe um telefonema e precisa voltar a sua cidade natal para acertar contas com o passado. As comparações entre os filmes de Marc Forster e Giuseppe Tornatore param aqui. Mas Cinema Paradiso é tocante sem ser piegas e seu diretor não teve medo de ser acusado como tal. Outro exemplo do gênero que deveria ter sido seguido por Forster e o roteirista David Benioff é 'Menina de Ouro'. Clint Eastwood fez um filme extremamente triste, mas que não necessariamente faz o público chorar.

A falta de emoção pode ser o maior dos problemas de O Caçador de Pipas, mas está longe de ser o único. Algumas cenas ficam soltas com tantos buracos no roteiro. Não posso contar, mas a impressão é que faltou informação em alguns diálogos para explicar as motivações de alguns personagens. Há uma cena específica entre os pais de Amir e Hassan que simplesmente não faz sentido (quando um deles avisa estar de malas prontas para ir embora). Você vai ver.

Poderia ter sido melhor, mas ainda assim conseguiu uma indicação ao Oscar no quesito trilha sonora – indiscutivelmente o que mais se destaca no filme. E 2 indicações ao Globo de Ouro (filme estrangeiro e mais uma vez trilha sonora). E só!

O caçador de pipas - ficha técnica
  • Titulo original: The kite runner
  • País: EUA
  • Ano: 2007
  • Duração: 122 min
  • Gênero: Drama
  • Direção: Marc Foster
  • Elenco: Khalid Abdalla, Homayoun Ershadi, Zekeria Ebrahimi, Ahmad Khan Mahmidzada e Shaun Toub
  • Avaliação 5,0

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